* Adotada pela
Assembléia Geral da Organização dos Estados Americanos em 6 de junho de
1994 e ratificada pelo Brasil em 27 de novembro de 1995.
A Assembléia Geral,
Considerando
que o reconhecimento e o respeito irrestrito de todos os direitos da
mulher são condições indispensáveis para seu desenvolvimento individual e
para a criação de uma sociedade mais justa, solidária e pacífica.
Preocupada
porque a violência em que vivem muitas mulheres da América, sem
distinção de raça, classe, religião, idade ou qualquer outra condição, é
uma situação generalizada.
Persuadida de sua responsabilidade histórica de fazer frente a esta situação para procurar soluções positivas.
Convencida da necessidade de dotar o Sistema Interamericano de um Instrumento Internacional que contribua para solucionar o problema da violência contra a mulher.
Recordando as conclusões e recomendações da Consulta Interamericana sobre a Mulher e a Violência, celebrada em 1990, e a Declaração sobre a Erradicação da Violência contra a Mulher, nesse mesmo ano, adotada pela Vigésima Quinta Assembléia de Delegadas.
Recordando também a Resolução AG/RES n. 1128(XXI-0/91) "Proteção da Mulher Contra a Violência", aprovada pela Assembléia Geral da Organização dos Estados Americanos.
Levando
em consideração o amplo processo de consulta realizado pela Comissão
Interamericana de Mulheres desde 1990 para o estudo e a elaboração de um
projeto de convenção sobre a mulher e a violência.Vistos os resultados
da Sexta Assembléia Extraordinária de Delegadas;resolve adotar a seguinte:
Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência Contra a Mulher –
"Convenção de Belém do Pará"
Os Estados Membros da presente Convenção:
Reconhecendo que o respeito irrestrito aos Direitos Humanos foi consagrado na Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem e na Declaração Universal dos Direitos Humanos e reafirmado em outros instrumentos internacionais e regionais.
Afirmando
que a violência contra a mulher constitui uma violação dos direitos
humanos e das liberdades fundamentais e limita total ou parcialmente à
mulher o reconhecimento, gozo e exercício de tais direitos e liberdades.
Preocupados
porque a violência contra a mulher é uma ofensa à dignidade humana e
uma manifestação de relações de poder historicamente desiguais entre
mulheres e homens.
Recordando a Declaração sobre a Erradicação da Violência contra a Mulher, adotada pela Vigésima Quinta Assembléia de Delegadas da Comissão Interamericana de Mulheres,
e afirmando que a violência contra a mulher transcende todos os setores
da sociedade, independentemente de sua classe, raça ou grupo étnico,
níveis de salário, cultura, nível educacional, idade ou religião, e
afeta negativamente suas próprias bases.
Convencidos
de que a eliminação da violência contra a mulher é condição
indispensável para seu desenvolvimento individual e social e sua plena
igualitária participação em todas as esferas da vida .
Convencidos de que a adoção de uma convenção para prevenir, punir e erradicar toda forma de violência contra a mulher, no âmbito da Organização dos Estados Americanos,
constitui uma contribuição positiva para proteger os direitos da mulher
e eliminar as situações de violência que possam afetá-las.
Convieram o seguinte:
Capítulo I
Definição e âmbito de Aplicação
Artigo 1º
Para
os efeitos desta Convenção deve-se entender por violência contra a
mulher qualquer ação ou conduta, baseada no gênero, que cause morte,
dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher, tanto no
âmbito público como no privado.
Artigo 2º
Entender-se-á que violência contra a mulher inclui violência física, sexual e psicológica:
§1.
Que tenha ocorrido dentro da família ou unidade doméstica ou em
qualquer outra relação interpessoal, em que o agressor conviva ou haja
convivido no mesmo domicílio que a mulher e que compreende, entre
outros, estupro, violação, maus-tratos e abuso sexual:
§2.
Que tenha ocorrido na comunidade e seja perpetrada por qualquer pessoa e
que compreende, entre outros, violação, abuso sexual, tortura, maus
tratos de pessoas, tráfico de mulheres, prostituição forçada, seqüestro e
assédio sexual no lugar de trabalho, bem como em instituições
educacionais, estabelecimentos de saúde ou qualquer outro lugar, e
§3. Que seja perpetrada ou tolerada pelo Estado ou seus agentes, onde quer que ocorra.
Capítulo II
Direitos Protegidos
Artigo 3º
Toda mulher tem direito a uma vida livre de violência, tanto no âmbito público como no privado.
Artigo 4º
Toda
mulher tem direito ao reconhecimento, gozo, exercícios e proteção de
todos os direitos humanos e às liberdades consagradas pelos instrumentos
regionais e internacionais sobre Direitos Humanos. Estes direitos
compreendem , entre outros:
a) O direito a que se respeite sua vida.
b) O direito a que se respeite sua integridade física, psíquica e moral.
c) O direito à liberdade e à segurança pessoais.
d) O direito a não ser submetida a torturas.
e) O direito a que se refere a dignidade inerente a sua pessoa e que se proteja sua família.
d) O direito à igualdade de proteção perante a lei e da lei;
e) O direito a um recurso simples e rápido diante dos tribunais competentes, que a ampare contra atos que violem seus direitos.
f) O direito à liberdade de associação.
g) O direito à liberdade de professar a religião e as próprias crenças, de acordo com a lei.
h)
O direito de ter igualdade de acesso às funções públicas de seu país e a
participar nos assuntos públicos, incluindo a tomada de decisões.
Artigo 5º
Toda
mulher poderá exercer livre r plenamente seus direitos civis,
políticos, econômicos, sociais e culturais e contará com a total
proteção desses direitos consagrados nos instrumentos regionais e
internacionais sobre direitos humanos. Os Estados Membros reconhecem que
a violência contra a mulher impede e anula o exercício desses direitos.
Artigo 6º
O direito de toda mulher a uma vida livre de violência incluir, entre outros:
a) O direito da mulher de ser livre de toda forma de discriminação.
b)
O direito da mulher ser valorizada e educada livre de padrões
estereotipados de comportamento e práticas sociais e culturais baseados
em conceitos de inferioridade de subordinação.
Capítulo III
Deveres dos Estados
Artigo 7º
Os
Estados Membros condenam toda as formas de violência contra a mulher e
concordam em adotar, por todos os meios apropriados e sem demora,
políticas orientadas e prevenir, punir e erradicar a dita violência e
empenhar-se em:
§1.
Abster-se de qualquer ação ou prática de violência contra a mulher e
velar para que as autoridades, seus funcionários, pessoal e agentes e
instituições públicas se comportem conforme esta obrigação.
§2. Atuar com a devida diligência para prevenir, investigar e punir a violência contra a mulher.
§3.
Incluir em sua legislação interna normas penais, civis e
administrativas, assim como as de outra natureza que sejam necessárias
para prevenir, punir e erradicar a violência contra a mulher e adotar as
medidas administrativas apropriadas que venham ao caso.
§4.
Adotar medidas jurídicas que exijam do agressor abster-se de fustigar,
perseguir, intimidar, ameaçar, machucar, ou pôr em perigo a vida da
mulher de qualquer forma que atente contra sua integridade ou prejudique
sua propriedade.
§5.
Tomar todas as medidas apropriadas, incluindo medidas de tipo
legislativo, para modificar ou abolir lei e regulamentos vigentes, ou
para modificar práticas jurídicas ou consuetudinárias que respaldem a
persistências ou a tolerância da violência contra a mulher.
§6.
Estabelecer procedimentos jurídicos justos e eficazes para a mulher que
tenha submetida a violência, que incluam, entre outros, medidas de
proteção, um julgamento oportuno e o acesso efetivo a tais
procedimentos.
§7.
Estabelecer os mecanismos judiciais e administrativos necessários para
assegurar que a mulher objeto de violência tenha acesso efetivo a
ressarcimento, reparação do dano ou outros meios de compensação justos e
eficazes.
§8. Adotar as disposições legislativas ou de outra índole que sejam necessárias para efetivar esta Convenção.
Artigo 8º
Os Estados Membros concordam em adotar, em forma progressiva, medidas específicas, inclusive programas para:
§1.
Fomentar o conhecimento e a observância do direito da mulher a uma vida
livre de violência o direito da mulher a que se respeitem para protejam
seus direitos humanos.
§2.
Modificar os padrões sócio-culturais de conduta de homens e mulheres,
incluindo a construção de programas de educação formais e não-formais
apropriados a todo nível do processo educativo, para contrabalançar
preconceitos e costumes e todo outro tipo de práticas que se baseiem na
premissa da inferioridade ou superioridade de qualquer dos gêneros ou
nos papéis estereotipados para o homem e a mulher ou legitimam ou
exacerbam a violência contra a mulher.
§3.
Fomentar a educação e capacitação do pessoal na administração da
justiça, policial e demissão funcionários encarregado da aplicação da
lei assim como do pessoal encarregado das políticas de prevenção, sanção
e eliminação da violência contra a mulher.
§4.
Aplicar os serviços especializados apropriados para o atendimento
necessário à mulher objeto de violência, por meio de entidades dos
setores público e privado, inclusive abrigos, serviços de orientação
para toda a família, quando for o caso, e cuidado e custódia dos menores
afetado.
§5.
Fomentar e apoiar programas de educação governamentais e do setor
privado destinados a conscientizar o público sobre os problemas
relacionados com a violência contra a mulher, os recursos jurídicos e a
reparação correspondente.
§6.
Oferecer à mulher objeto de violência acesso a programas eficazes de
reabilitação e capacitação que lhe permitam participar plenamente na
vida pública, privada e social.
§7.
Estimular os meios de comunicação e elaborar diretrizes adequadas de
difusão que contribuam para a erradicação da violência contra a mulher
em todas suas formas e a realçar o respeito à dignidade da mulher.
§8.
Garantir a investigação e recopilação de estatísticas e demais
informações pertinentes sobre as causas, conseqüências e freqüência da
violência contara a mulher, como objetivo de avaliar a eficácia das
medidas para prevenir, punir e eliminar a violência contra a mulher e de
formular e aplicar as mudanças que sejam necessárias.
§9.
Promover a cooperação internacional para o intercâmbio de idéias e
experiências e a execução de programas destinados a proteger a mulher
objeto de violência.
Artigo 9º
Para
a adoção das medidas a que se refere este capítulo, os Estados Membros
terão especialmente em conta a situação de vulnerabilidade à violência
que a mulher possa sofrer em conseqüência, entre outras, de sua raça ou
de sua condição étnica, de migrante, refugiada ou desterrada.. No mesmo
sentido se considerará a mulher submetida à violência quando estiver
grávida, for excepcional, menor de idade, anciã, ou estiver em situação
sócio-econômica desfavorável ou afetada por situações de conflitos
armados ou de privação de sua liberdade.
Capítulo IV
Mecanismos Interamericanos de Proteção
Artigo 10º
Com
o propósito de proteger o direito da mulher a uma vida livre de
violência, nos informes nacionais à Comissão Interamericana de Mulheres,
os Estados Membros deverão incluir informação sobre as medidas adotadas
para prevenir e erradicar a violência contra a mulher, para assistir a
mulher afetado pela violência, assim como cobre as dificuldades que
observem na aplicação das mesmas e dos fatores que contribuam à
violência contra a mulher.
Artigo 11
Os Estados Membros nesta Convenção e a Comissão Interamericana de Mulheres poderão requerer à Corte Interamericana de Direitos Humanos opinião consultiva sobre a interpretação desta Convenção.
Artigo 12
Qualquer
pessoa ou grupo de pessoas, ou entidade não-governamental legalmente
reconhecida em um ou mais Estados Membros da Organização, pode
apresentar à Comissão Interamericana de Direitos Humanos
petições que contenham denúncias ou queixas de violação do "artigo 7º"
da presente Concepção pelo Estado Membro, e a Comissão considerá-las-á
de acordo com as normas e os requisitos de procedimento para
apresentação e consideração de petições estipuladas na Convenção Americana sobre Direitos Humanos e no Estatuto e Regulamento da Comissão Interamericana de Direitos Humanos.
Capítulo V
Disposições Gerais
Artigo 13
Nada
do disposto na presente Convenção poderá ser interpretado como
restrição ou limitação à legislação interna dos Estados Membros que
preveja iguais ou maiores proteções e garantias aos direitos da mulher e
salvaguardas adequadas para prevenir e erradicar a violência contra a
mulher.
Artigo 14
Nada do disposto na presente Convenção poderá ser interpretado como restrição ou limitação à Convenção Americana sobre Direitos Humanos ou a outra convenções internacionais sobre a matéria que prevejam iguais ou maiores proteções relacionadas com este tema.
Artigo 15
A presente Convenção está aberta à assinatura de todos os Estados Membros da Organização dos Estados Americanos.
Artigo 16
A presente Convenção está sujeita à ratificação. Os instrumentos de ratificação serão depositados na Secretaria Geral da Organização dos Estados Americanos.
Artigo 17
A presente Convenção fica aberta à adesão de qualquer outro Estado. Os instrumentos de adesão serão depositados na Secretaria Geral da Organização dos Estados Americanos.
Artigo 18
Os
Estados poderão formular reservas à presente Convenção no momento de
aprová-la, assiná-la, ratificá-la ou aderir a ela, sempre que:
§1. Não sejam incompatíveis com o objetivo e o propósito da Convenção;
§2. Não sejam de caráter geral e versem sobre uma ou mais disposições específicas.
Artigo 19
Qualquer Estado Membro pode submeter à Assembléia Geral, por meio da Comissão Interamericana de Mulheres, uma proposta de emenda a esta Convenção.
As
emendas entrarão em vigor para os Estados ratificantes das mesmas na
data em que dois terços dos Estados Membros tenham depositado o
respectivo instrumento de ratificação. Quanto ao resto dos Estados
Membros, entrarão em vigor na data em que depositem seus respectivos
instrumentos de ratificação.
Artigo 20
Os
Estados Membros que tenham duas ou mais unidades territoriais em que
funcionem distintos sistemas jurídicos relacionados com questões
tratadas na presente Convenção poderão declarar, no momento da
assinatura, ratificação ou adesão, que a Convenção aplicar-se-á a todas
as unidades territoriais ou somente a uma ou mais.
Tais
declarações poderão ser modificadas em qualquer momento mediante
declarações ulteriores, que especificarão expressamente a ou as unidades
territoriais às quais será aplicada a presente Convenção. Tais
declarações ulteriores serão transmitidas à Secretaria Geral da Organização dos Estados Americanos e entrarão em vigor trinta dias após seu recebimento.
Artigo 21
A
presente Convenção entrará em vigor no trigésimo dia a partir da data
que tenha sido depositado o segundo instrumento de ratificação. Para
cada Estado que ratifique ou adira à Convenção, depois de ter sido
depositado o segundo instrumento de ratificação, entrará em vigor no
trigésimo dia a partir da data em que tal Estado tenha depositado seu
instrumento de ratificação ou adesão.
Artigo 22
O Secretário Geral informará a todos os Estados membros da Organização dos Estados Americanos da entrada em vigor da Convenção.
Artigo 23
O Secretário Geral da Organização dos Estados Americanos apresentará um informe anual aos Estados membros da Organização sobre a situação desta Convenção,
inclusive sobre as assinaturas, depósitos de instrumentos de
ratificação, adesão ou declarações, assim como as reservas porventura
apresentadas pelos Estados Membros e, neste caso, o informe sobre as
mesmas.
Artigo 24
A
presente Convenção vigorará indefinidamente, mas qualquer dos Estados
Membros poderá denunciá-la mediante o depósito de um instrumento com
esse fim na Secretaria Geral da Organização dos Estados Americanos.
Um ano depois da data do depósito de instrumento de denúncia, a
Convenção cessará em seus efeitos para o Estado denunciante, continuando
a subsistir para os demais Estados Membros.
Artigo 25
O
instrumento original na presente Convenção, cujos textos em espanhol,
francês, inglês e português são igualmente autênticos, será depositado
na Secretaria Geral da Organização dos Estados Americanos, que enviará cópia autenticada de seu texto para registro e publicação à Secretaria das Nações Unidas, de conformidade com o "artigo 102" da Carta das Nações Unidas.
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